Realismo no Arch Viz: Segunda Parte


Image courtesy: Lucia Frascerra. Project by Tommaso Secchi & Chiara Baiocco.


Um desafio pouco comum


Na primeira parte desta série, abordamos o realismo da visualização arquitetónica num contexto histórico-artístico, mostrando como o realismo de facto desempenha um papel relativamente pequeno na historia global da arte. (Usamos o termo “realismo” no sentido popular da precisão ótica - ao contrário do movimento literário e artístico do Século 19 chamado Realismo, que tinha objetivos muito específicos). O realismo, na verdade, é meio que um outsider no mundo da arte. Devido a isto, teve que desenvolver métodos especiais para atingir as mesmas qualidade expressivas que se encontravam na arte “normal”, ou seja, arte que tem qualidades estilizadas e abstratas, como é encontrada na maioria das culturas tradicionais um pouco por todo o mundo. Estes métodos especiais, desenvolvidos por pintores desde o século 15, provaram ser particularmente importantes para a visualização arquitetónica como forma de atingir a emoção ou ambiente desejados numa imagem. A imagem acima de Lucia Frascerra está longe de ser apenas uma peça de realismo fotográfico extremamente bem conseguido. As qualidades que a tornam de forma tangível, tão envolventes e realistas, vão muito além da mera precisão ótica.


Johannes Vermeer. Girl with a Pearl Earring, c. 1665, Mauritshuis, The Hague.

O mesmo pode ser dito sobre esta obra prima de Jan Vermeer. A cara da rapariga, tal como o seu brinco de pérola, parecem ter sido pintados com pura luz. A precisão ótica foi conseguida aqui a um grau supremo. Mas a qualidade vivida desta imagem inesquecível deve o seu impacto a bastante mais que isto. As qualidades que dão vida a uma imagem, tornando-a tangivelmente real para o espetador, não são tanto técnicas como são artísticas e abstratas. Ao contrário da arte tradicional, a arte realista esconde estas qualidades cuidadosamente, sendo que o espectador comum nem está ciente delas.



As qualidades escondidas da arte realista


A expressão de emoção numa cena realista traz alguns problemas difíceis. Nos estilos de arte tradicionais, a expressão de emoção e ambiente é dada pela distorção expressiva da forma que é inerente ás qualidades abstratas do estilo. Esta abstração pode igualmente expressar uma atitude em particular para com o mundo. A arte Moderna, a começar pelo Pós-Impressionismo, recapturou essas qualidades, tal como mostram as pinturas de Vincent van Gogh.


Vincent van Gogh. The Starry Night, 1889, Museum of Modern Art, New York

Esta pintura é bastante diferente de qualquer fotografia de uma noite estrelada, mas transmite a visão e emoção do artista de uma forma que é artisticamente mais direta do que qualquer fotografia ou pintura realista conseguiriam. Imaginem esta cena sem a distorção ou abstração da forma, sem o exagero de cor ou uso agressivo do pincel. Isto tudo são ferramentas abstratas que nada têm a ver com a realidade fotográfica. Um uso de cor meio abstrato é uma das maneiras mais eficazes de embutir numa imagem realista um ambiente ou emoção, e tem sido utilizada por pintores desde o Renascimento. Um trabalho de pincel exagerado ou óbvio foi igualmente empregue por alguns artista desde o Renascimento, embora de forma bastante subtil na sua maioria.


Tiziano Vecellio (Titian). Portrait of a man with a quilted sleeve, 1509, National Gallery, London

A manga de seda acolchoada do modelo, nesta pintura de Tiziano, deve as suas qualidades realistas não apenas devido á tonalidade correta e variações subtis de matiz e saturação, mas também, em grande parte, devido á liberdade de expressão do pincel. De perto, está longe de ser uma pintura realista, mas, a uma curta distancia, cria uma efeito ótico que dá uma vitalidade ao seu realismo que não é facilmente alcançável com nenhuma câmera. Isto é mais notável quando se está frente a frente com a pintura real, visto que envolve os aspetos tridimensionais do trabalho de pincel. A luz reflete nas diferentes espessuras da pintura a óleo e na textura da tela de formas que são habilmente manipuladas pelo artista para produzir este efeito. Além disso, o artista subtilmente expressa emoção humana através do trabalho de pincel. Uma pincelada é como a escrita à mão - expressa diretamente algo único da personalidade do autor, mas fá-lo de forma muito mais rica e eloquente. É este toque humano adicional que dá à imagem uma vitalidade extra que nenhuma fotografia consegue alcançar.


Diego Velázquez. Las Meninas, 1656, Museo del Prado

Nesta pintura de Diego Velázquez, feita 150 anos mais tarde, esta técnica foi levada ainda mais á frente. A vitalidade e realismo excepcionais das senhoras à espera e da pequena Infanta, transformam-se numa mistura de pinceladas quebradas á medida que nos vamos aproximando da pintura (ver imagem abaixo).


Detail of the Infanta Margarita from Las Meninas.

A Aplicação da pintura no arch viz


Esta vitalidade ótica pode, até certo ponto, ser emulada no arch viz através do contraste de áreas com um foco nítido e áreas “borradas”. Note o quão desfocadas estão as mãos e até o perfil da senhora á esquerda. Muito do realismo da pintura é conseguido, ironicamente, através de meios abstratos - o contraste da pintura grossa com fina; as modulações graduais de tonalidade e cor que contrastam com transições abruptas de uma matiz extrema para outra; pinceladas quebradas e ásperas com pinceladas macias e uniformes; pontos de cor saturada com campos de cor neutra; etc.. Estes meios abstratos expressam emoção da mesma forma que a arte abstrata - diretamente através de princípios estéticos abstratos - e é este lado expressivo da pintura realista que o torna mais como a vida real do que uma fotografia. Estas qualidades escondidas têm que ser “sentidas” - não as podemos explicar ou calcular puramente em termos racionais.


Image Courtesy: Stab

O Arch Viz, através de tecnologia diferente mas com os mesmo princípios, consegue atingir efeitos similares. Nesta imagem de Stab, o uso do campo de profundidade opera em dois níveis. O realismo direto conseguido por ter o primeiro plano fora de foco é reforçado pelo contraste esteticamente equilibrado dos contornos desfocados dos vidros, pelo foco nítido das formas a meia distância e pela perspectiva atmosférica nebulosa da paisagem distante. Isto é ainda complementado por um uso abstrato de cor: o equilíbrio cuidadoso de complementos divididos e degradados (roxo-azuis dessaturados com dourados, castanhos e castanhos-avermelhados) tal como um uso de tonalidades contrastantes artisticamente consideradas que vão do forte ao subtil. Tudo isto combina de forma a expressar um distinto sentido humano de beleza, equilíbrio e proporções corretas que conferem vida á imagem - o tipo de vida ou vitalidade que uma imagem fotográfica baseada puramente em precisão ótica nunca conseguiria ter. Isto destaca então o facto de que as imagens de arch viz devem ir diretamente contra os princípios do Realismo (no seu sentido histórico artístico - ver Parte Um) de forma a atingir os seus objetivos representacionais. A nossa experiência da realidade é sempre subjetiva. Os pontos de vista, crenças, atitudes, sistemas de valores, emoções e aspirações que constituem uma parte vital da perceção humana, adicionam realismo a uma imagem. Nesta imagem, a característica central da realidade a ser transmitida é aquela de um estilo de vida de requinte e luxo, e isto foi conseguido através de uma habilidade artística considerável.


Michelangelo Merisi da Caravaggio. The Crucifixion of Saint Peter, 1601, Santa Maria del Popolo, Rome

Resolver o problema da forma expressiva : Luz, claro-escuro e efeitos atmosféricos


Mas, talvez a forma mais direta e poderosa na qual a arte tradicional, tal como a arte moderna, expressam a emoção e ambiente, é através da distorção da forma. Durante o Sec.15 e 16, as pinturas realistas encontraram uma maneira de compensar o facto de não poderem fazer isto diretamente. A resposta ao problema encontrou-se num uso cuidadoso de luz e sombra. O termo chiaroscuro (do italiano chiaro - “claro” e oscuro - “escuro”) foi cunhado para descrever este contraste artístico de luz e sombra na pintura. No Sec.17, alguns artistas que levaram esta técnica a novos níveis de intensidade dramática, como mostra esta pintura de Caravaggio. Ao realçar dramaticamente certas partes dos corpos e ao esconder outras na sombra, o artista consegue criar novas formas que dividem a forma humana e outros objetos numa ampla gama de formatos expressivos, capazes de transmitir quase tudo o que o artista desejar. Além disso e talvez mais importante, formas indesejadas, detalhes e texturas que poderiam tornar a composição desordenada e que não têm qualquer função estética, podem ser eliminados ao serem escondidos nas sombras mais escuras. A composição poderosa e a intensidade emocional resultante que Caravaggio consegue aqui com este uso expressivo de formas angulares contrastantes, é direta no seu impacto sem que seja necessário recorrer a distorções mais óbvias.


Rembrandt van Rijn. Self-Portrait as the Apostle Paul, 1661, Rijksmuseum.

Mais tarde, durante o mesmo século, Rembrandt combinou chiaroscuro (inspirado no exemplo de Caravaggio) com pinceladas quebradas, para conseguir uma intensidade de expressão que faz com que esta pintura atinja os mais altos níveis de realismo possível.


Image Courtesy: Lucia Frascerra

Nesta imagem, Lucia Frascerra utiliza chiaroscuro com uma habilidade artística já consumada. Áreas claras de luz solar vão ao encontro de áreas com sombras profundas para criar contornos orgânicos complexos, que operam como linhas expressivas e melódicas numa peça de música. Cada elemento pictórico está envolvido neste diálogo entre extremos de tonalidade, cuidadosamente equilibrados para tornar toda a cena numa expressão eloquente e vibrante da ideia central da imagem (‘Somewhere only we know’ - “Um sitio que só nós conhecemos” é o titulo da imagem ).


Image courtesy: Pixelflakes

Pixelflakes aqui aplica o chiaroscuro para atingir um ambiente muito diferente. Os contrastes tonais variam de bastante fortes a subtis, com uma gama aparentemente infinita de possibilidades intermediárias que são exploradas de uma forma altamente criativa. Áreas contrastantes de tonalidades quentes e frias, com vários níveis de saturação diferentes, aumentam ainda mais o efeito geral. O orquestração cuidadosa destes e outros efeitos pictóricos resultam num trabalho de arte com uma riqueza e vitalidade extraordinária.


Joseph Mallord William Turner. Snowstorm: Steam-Boat off a Harbour’s Mouth, 1842, Tate Gallery

Ambas as imagens empregam efeitos atmosféricos (a luz solar nublosa do fim do dia, vapor, etc) que não são menos importantes que os objetos pictóricos numa pintura realista. A pintura de Turner (acima) utiliza vários efeitos atmosféricos para criar uma composição que é virtualmente abstrata.


Image courtesy: Luxigon

Tal como a pintura de Turner, esta imagem de Luxigon utiliza uma composição baseada numa espiral. A espiral dinâmica do edifício parece quase transbordar para as formas livres das nuvens, enquanto os contornos das árvores no edifício ecoam na forma dessas nuvens para reforçar o link visual. A névoa do sol poente permite ao artista atenuar as formas geométricas “barulhentas” da paisagem urbana e definir o tom emocional exatamente da mesma forma que um pintor como o Turner faria. Estes efeitos atmosféricos proporcionam ao artista uma liberdade criativa e um controlo sobre os elementos pictóricos que foi empregue aqui com bastante sucesso, de forma a produzir uma imagem com um grande poder dramático.


Na imagem de Forbes Massie Studio (abaixo), os efeitos atmosféricos e efeitos e luz, sombra e reflexos foram integrados com uma sofisticação extraordinária na composição geral para alcançar um realismo que emula de forma consciente o “sentimento” de pinturas realistas de séculos passados. É uma obra de arte de realismo tipo pintura no seu próprio direito. Esses elementos estéticos vitais que a tornam mais vivida que uma fotografia são evidentes em todos os aspetos da imagem.


Image courtesy: Forbes Massie Studio

Realismo na visualização arquitetónica depende de qualidades abstratas


A conquista do realismo fotográfico no Arch Viz não é suficiente. Uma fotografia que é bem conseguida tecnicamente mas que não transmite emoção pode ficar completamente sem vida.

O realismo no arch viz tem que envolver o espectador e dar vida à cena e isto é, de forma considerável, um problema subjetivo - é a expressão de valores, atitudes, emoções, sonhos e aspirações. Por outras palavras, são todas as coisas das quais o movimento artístico do Realismo se tentou ver livre - como obstáculos para a realização do realismo científico (ver Parte Um). Tal como acontece com a arte mais abertamente expressiva, como a pintura de Van Gogh acima, o realismo depende de qualidades abstratas, humanas e subjetivas para alcançar a vitalidade que o torna verdadeiramente real para nós.





Artigo original em inglês

Traduzido por Maria Duarte








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